O roteiro de Dilma neste sábado (1º), antes de se tornar a primeira mulher presidente do Brasil, começou com um desfile pela Esplanada dos Ministérios, em carro fechado por conta das chuvas na capital federal. Ela assumiu o cargo oficialmente em uma sessão do Congresso. Mais tarde, recebeu a faixa presidencial de Lula, desceu com ele a rampa do prédio da Presidência da República e recebeu líderes estrangeiros.
Depois de dar posse a seus ministros, Dilma segue para o Palácio do Itamaraty, onde receberá convidados em um coquetel. Lula não estará presente: já se dirige para São Paulo, onde visitará o ex-vice-presidente José Alencar, internado no hospital Sírio-Libanês. Em seguida, ele vai a São Bernardo do Campo, seu berço político, que prepara uma recepção para o seu morador mais ilustre.
Em seu discurso no Congresso (assista ao lado), Dilma afirmou que "a luta mais obstinada" do seu governo será "pela erradicação da pobreza extrema e a criação de oportunidades para todos". "Uma expressiva mobilidade social ocorreu nos dois mandatos do presidente Lula, mas ainda existe pobreza no Brasil", disse a presidente, no discurso de cerca de 40 minutos. "Não vou descansar enquanto houver brasileiros sem alimentos na mesa."
No parlatório do Palácio do Planalto, ela repetiu a menção ao combate à pobreza e acenou para a oposição. "Minhas mãos vão estar abertas e estendidas para todos. Até àqueles que não nos acompanharam no processo eleitoral", afirmou ela, já com a faixa presidencial. "Buscarei o apoio e respeitarei a crítica", completou ela em outro momento do segundo discurso após ser empossada.
Choro
Antes do discurso, Dilma leu e assinou, juntamente com o vice-presidente Michel Temer, o compromisso constitucional de posse, quando se tornou oficialmente a primeira presidente do Brasil. Depois disso, chorou em dois momentos: ao dizer que é agora "a presidenta de todos os brasileiros" e ao recordar os companheiros da sua geração que, na luta armada contra a ditadura militar, "tombaram pelo caminho".
Dilma Rousseff, em discurso de posse
Mulheres que dividiram cela com Dilma nos anos 70 estavam presentes no Palácio do Planalto e se emocionaram com a subida da colega. A mãe e a tia da presidente estavam na primeira fileira de convidados, bem diante da rampa que dá acesso ao escritório do governo.
Presa por três anos na década de 70 e torturada durante o regime militar, Dilma disse que chega à presidência sem ressentimento nem rancor. A presidente insistiu em lembrar a simbologia de uma mulher chegar ao mais alto cargo do país. "É a primeira vez que uma faixa presidencial cingirá o ombro de uma mulher", afirmou logo no início de seu primeiro discurso como mandatária.
"Venho para abrir portas para que muitas outras mulheres também possam, no futuro, serem presidentas; e para que -no dia de hoje- todas as brasileiras sintam o orgulho e a alegria de ser mulher", disse. No discurso do parlatório, Dilma embargou a voz ao se referir à "grandiosidade" do ex-presidente que fez dela sua candidata à sucessão apesar de seu perfil de técnica que nunca tinha disputado uma eleição sequer.
Lula
O nome do antecessor foi o mais mencionado pela presidente em seus dois discursos. "Venho para consolidar a obra transformadora do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem tive a mais vigorosa experiência política da minha vida", disse ela no Congresso. "Ele levou o povo brasileiro a confiar ainda mais em si mesmo e no futuro de seu país". No parlatório, ela o chamou de "maior líder popular" do Brasil.
"Primeira vez que a faixa presidencial cingirá o ombro de uma mulher"
Após subir a rampa do Palácio do Planalto e abraçar o homem que a projetou, Dilma afirmou que, mesmo não ocupando cargos políticos, o ex-presidente continuará contribuindo com o governo. "Lula estará conosco. Sei que a distância de um cargo nada significa para um homem de tamanha grandeza", afirmou, após receber a faixa. "A tarefa de suceder Lula é desafiadora. Saberei honrá-la e irei avançar."
"Estou feliz como raras vezes estive na vida, com a oportunidade que a história me deu de ser a primeira mulher na história a governar o Brasil. Mas estou mais feliz pela honra de seu apoio, de ter o privilégio de sua convivência e ter apreendido com sua imensa sabedoria", disse Dilma, referindo-se a Lula.
O segundo discurso da presidente durou menos de 13 minutos e teve um tom mais informal do que o primeiro pronunciamento. O tom utilizado lembrou o do texto lido por ela após sua vitória nas eleições de outubro. O vice de Lula, José Alencar, internado em São Paulo, foi lembrado como "incansável lutador" e "companheiro".
Dilma, que teve dificuldades com setores religiosos durante a campanha, citou Deus em seus discursos: "Que Deus abençoe o Brasil e o povo brasileiro. Que todos nós juntos possamos construir um mundo de paz. Eu darei todo meu empenho para fazer com que as transformações dos últimos oito anos continuem, prossigam e se expandam", afirmou.
Coro, só para Lula
Momentos antes de passar a faixa presidencial a Dilma, Lula chegou ao saguão do Palácio do Planalto risonho. Cumprimentou ministros com tom debochado: "Juízo, meninos", repetiu. A mulher dele, Marisa Letícia, chorou ao abraçar amigas. Por pelo menos um minuto, os convidados entoaram o nome do agora ex-presidente. A nova ocupante do cargo não teve o nome gritado dentro do palácio nenhuma vez.
Entre os convidados, estavam os ex-ministros-chefes da Casa Civil, Erenice Guerra e José Dirceu – ambos excluídos do governo anterior em escândalos de corrupção. Erenice é suspeita de tráfico de influência e nepotismo, enquanto Dirceu deixou o cargo ao ser indicado como articulador do mensalão. Os dois bateram palmas para Lula, que não chegou a cumprimentá-los ao sair do Palácio do Planalto.
Dilma e Lula se despediram no meio da pista que separa a rampa da Praça dos Três Poderes, onde milhares de pessoas assistiam à cerimônia. O ex-presidente passou cerca de cinco minutos cumprimentando populares, antes de se dirigir à Base Aérea de Brasília para retornar a São Paulo. Dilma subiu a rampa novamente ao lado de Temer. Já não havia coro por Lula nem quem a recebesse na entrada do Palácio.
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